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Artigo - ECCE PANIS ANGELORUM FACTUS CIBUS VIATORUM - Tarcísio Maria
03/06/2021 07:18 em Opinião

JORNAL DA ILHA - Artigo

Ilha Solteira - Com essas primeiras palavras do conhecido hino eucarístico, quero convidar aos senhores e as senhoras que leem estas poucas e modestas linhas, para uns instantes de reflexão e louvor ao Santíssimo e Diviníssimo Sacramento.

Vivemos num tempo marcadamente conhecido pela fome. Fome de pão, fome de justiça, fome de liberdade, fome de saúde, fome de vida e fome de Deus! É um clamor que sobe aos céus e que revela as mazelas da nossa humanidade tão espoliada, tão ultrajada, tão ferida.... Em suma: faminta!

Narra a Sagrada Escritura que, na rota peregrina rumo a terra prometida, o povo teve fome e clamou aos céus por intermédio de Moisés para que viesse em socorro de sua aflição. O Senhor orvalhou misericórdia sobre as tendas do seu povo e ao clarear do dia um grão pequeno e desconhecido cobria a superfície da terra. Era o pão dos anjos! 

Sinal pálido do que Deus reservara ao porvir da humanidade, foi o maná um alimento para o corpo e para alma a todo aquele que compreendeu a magnitude do gesto de Deus e soube degustar com o paladar e a alma aquele santo alimento.

Na sua presença histórica e humana sobre esta terra, quis o Senhor desde o seu nascimento fazer-se alimento. Nasceu em Belém, etimologicamente falando, a Casa do Pão. Inocente e frágil, foi seu berço uma manjedoura, um recipiente de trato dos animais. O primeiro de seus sinais, o Milagre de Caná, uma festa onde faltara vinho, a bebida que acompanha o pão nas grandes celebrações.

Antes da derradeira oferta, da consumação de seu amor divino e onipotente pelo homem, quis o Cristo cear com os seus e selar num banquete de amor a sua passagem terrena e humana na história do mundo. In meam commemorationem e desde então, em sua memória, num laus perene o banquete da Santa Missa é celebrado em todo o mundo iluminando mais que o sol a nossa vida, a história do seu povo, da nossa salvação!

Deu-se em comida e bebida mostrando qual seria o caminho aos que o seguiam: fazer-se vítima e alimento, força e exemplo no trilhar desta jornada. Ele que se fez servo dos homens e consumou sua vida por eles! Luz que dissipou as trevas do medo e do mal! Homem e Deus! Trigo e pão! Ecce panis angelorum factus cibus viatorum! Eis o pão dos anjos que se fez comida das almas peregrinas!

O homem ainda hoje tem fome de Deus. O homem hoje, mais do que nunca, tem fome de Deus! Esta fome se retrata como num prisma sobre o véu de outras muitas fomes.... Fome de pão; que não é ter fome de migalhas, mas de trabalho, de vida de retidão; aquilo que tantos têm e que ele tem o direito de conquistar! Fome de justiça porque estes bem-aventurados serão saciados e conforme canta o salmista: o Senhor não desampara a viúva nem o órfão. Fome de liberdade, por que foi a vida de Cristo o preço do nosso resgate! E, por isso para o batizado, a vida é toda Cristo e nada é vida fora Dele. Fome de saúde, porque todos os fardos, todas as lágrimas serão no Senhor aliviadas! E já dizia o profeta: veio para curar os corações sofridos. Fome de vida porque só Ele é o caminho a verdade e a vida! Fome de Deus, porque sem Ele somos somente pó assentado sobre a superfície da natureza e os nossos olhos no Senhor esperam.

Em tempos de tantas lágrimas e dores, causadas pela incerteza e pela descrença, a Solenidade de Corpus Christi vem nos lembrar que Deus, na pessoa de Jesus Cristo, nos aguarda para um encontro de vida em plenitude cuja beleza só Ele conhece. Vem nos lembrar que no sacrário Ele lá está à nossa espera como o pai que aguarda o retorno do filho pródigo! Vem nos dizer que a vida venceu a morte e que o amor triunfou. Vem nos mostrar que aqueles pelos quais, tantos de nós lamentam a dor e o sofrimento, chorando a amarga e brutal partida, não foram esquecidos! 

É Cristo que está presente! Que vive como quê, num mistério de profundo amor e união, a lapidação das almas eleitas, no sofrimento para a purificação do coração da humanidade. Deus caminha à frente e nós o seguimos!

Que seja esta festa, esta solenidade, o que seu hino coloca em nossos lábios a cantar: amparo dos que caminham rumo à pátria definitiva! Consolo dos que sofrem! Alegria dos santos! Delícia eterna dos Anjos! E para todos nós, prenúncio do Céu! Amém!

Por Irmão Tarcísio Maria, O. Cist., Monge Cisterciense, Mosteiro Nossa Senhora do Divino Espírito Santo, Claraval, Minas Gerais.

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