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Aquífero Guarani terá programa para recuperação com participação de universidade
13/09/2020 10:23 em Ambiente

JORNAL DA ILHA - Ambiente

Botucatu - A Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado é uma das parcerias da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus Botucatu, no projeto de recuperação ecológica  em áreas do Aquífero Guarani, um gigante de 1,2 milhão de km² que fica sob o solo da América Latina e representa um dos maiores reservatórios de água doce do mundo.

Com 165 trilhões de litros de água ou 45 mil quilômetros cúbicos, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), ele é responsável pelo abastecimento de cidades inteiras, como Ribeirão Preto, porém, muito mais do que isso, pela vida e pelo equilíbrio do planeta.

O aquífero se estende por oito estados, sendo São Paulo um deles, mas passando também por Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Além disso, Argentina, Paraguai e Uruguai são países beneficiados.

Foi pensando na preservação desse gigante que professores da Unesp se uniram em parceria com outras entidades para apresentar ao Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) o Gigante Guarani, um projeto de recuperação de 200 hectares de Mata Atlântica, em especial Áreas de Preservação Permanente (APPs) e reservas legais (RL), que auxiliam na reposição da água das chuvas e na manutenção do equilíbrio ambiental proporcionado pela existência do aquífero.

O BNDES reservou à Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas e Florestais (Fepaf), vinculada à Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp/Botucatu, o valor de R$ 3.251.883,61.

Tendo a verba e a disposição das professoras Magali Ribeiro da Silva e Renata Cristina Batista Fonseca à frente do projeto, foi dado início a outras parcerias fundamentais para que a recuperação realmente pudesse acontecer. Diante desse contexto, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento foi convidada a ser parceira, por meio da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS) Regional Botucatu.

“Temos feito várias ações conjuntas, somos parceiros de longa data dos extensionistas da CDRS e, desde o início, tivemos a certeza de que, por meio da grande capacidade de inserção rural e credibilidade dos extensionistas, teríamos acesso aos produtores rurais, no caso agricultores familiares com até quatro módulos fiscais, que destinariam parte de sua área para a recuperação da mata associada com a proposta de uma produção agroecológica”, frisa a professora Renata Fonseca.

“Temos uma convivência estreita com os produtores rurais, trata-se de uma confiança que é reforçada ao longo dos anos e, realmente, da porteira da propriedade para dentro, o nosso acesso é sempre permitido e, normalmente, bem-vindo”, reforçam as engenheiras agrônomas Andréia Bosco Talamonte e Sandra Amaral, que atuam na Casa da Agricultura de Pardinho, um dos quatro municípios que fazem parte do projeto.

Em Pardinho, por enquanto, foi feito apenas um plantio na propriedade de José Augusto Pauletti com a técnica denominada “muvuca de sementes”, em que várias sementes agrícolas e florestais são misturadas com areia (material amorfo) para melhor distribuição no solo, seguindo a lógica da sucessão florestal, e plantadas a lanço.

A técnica está entre outras que vêm sendo ensinadas em cursos oferecidos pela CDRS – inclusive um que está atualmente em andamento, voltado a treinar 250 técnicos, tanto da Secretaria de Agricultura quanto da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente e da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

Segundo Andréia Bosco, Pardinho tem grande importância na iniciativa. “Aqui nasce o Rio Pardo. Tudo o que é feito nesse local se reflete em cidades da região e em localidades maiores, como Botucatu. Daqui, o Rio Pardo passa por 33 cidades até desaguar no Paranapanema. São áreas de recarga do aquífero que precisam ser cuidadas e preservadas”, diz.

Além desse projeto, Pardinho tem outros como o Projeto Nascentes, que previu a construção de cercas de proteção de mananciais e construção de terraços para plantio. “O Projeto Gigante Guarani é mais uma oportunidade que se abre para o produtor restaurar as suas matas, preservar, enriquecer e valorizar o seu patrimônio”, pontua.

O produtor José Augusto Pauletti confirma que a área dele já mostra os sinais de que a recuperação ecológica vem acontecendo a contento, dentro do que ele e a esposa esperavam e, quando a filha do casal tiver crescido, já terá uma mata com diversas espécies de árvores.

As propostas foram apresentadas aos produtores rurais dos municípios de Pardinho, Bofete e Itatinga, todos da área de atuação da CDRS Regional Botucatu, pelo então diretor, engenheiro agrônomo Júlio Romeiro, que fez as primeiras explanações aos produtores rurais. Na época do lançamento do projeto, há mais de um ano, Julio Romeiro viu uma oportunidade para os produtores.

“É um projeto que tem por objetivo promover a recuperação ecológica de 200 hectares da Mata Atlântica, associado com a produção agroecológica, em Áreas de Proteção Permanente, enfim, pode se tornar uma alternativa econômica para os produtores rurais realizarem a adequação ambiental”, afirma o técnico.

Atualmente, Julio Romeiro atua na CDRS Regional Marília e assumiu a diretoria técnica da CDRS Regional Botucatu o também engenheiro agrônomo Ricardo Chiarelli. “No momento, em função da pandemia de COVID-19, houve uma certa paralisação porque as visitas presenciais, no caso para delimitação da área e plantio, só estão sendo permitidas em casos de extrema necessidade, em razão do distanciamento social e da proteção, tanto dos produtores rurais e de suas famílias quanto dos técnicos”, explica.

Para o próximo ano, a previsão é chegar aos 100 hectares de plantio entre produtores de Pardinho e de Itatinga, município que já conta com 27 hectares envolvendo seis produtores rurais. Em Itatinga, quem comandou os contatos com produtores e participou das ações foi a engenheira agrônoma da Casa da Agricultura local, Luciana Calore.

“Aqui na região, a organização não governamental [ONG] parceira já tinha um perfil de produtor que se encaixava nos requisitos necessários, ou seja, que atua em até quatro módulos e onde havia necessidade de adequação ambiental. Para cada caso, foi escolhida uma técnica de recuperação ecológica e os plantios foram em março e setembro de 2019. A ideia é que em áreas possíveis seja instalado um SAF [Sistema Agroflorestal], com produção agroecológica, para que, além do ganho ambiental, haja, aliado a este, a possibilidade de ganho econômico também”, explica Calore.

Foi a opção do casal Luís Carlos e Aparecida Farias, proprietários da Estância Farias, um dos seis produtores de Itatinga que aderiram ao projeto. “Temos quatro minas em nossa propriedade e um riozinho. Era preciso proteger essa área, proteger a natureza e preservar a propriedade, que é a herança para nossas duas filhas e netos”, destaca Aparecida Farias.

O casal tem um pomar com mexericas, abacates e, ainda, uma horta com verduras e legumes cultivados de forma natural. “Aqui, só usamos esterco, não somos orgânicos porque não temos a certificação, mas é tudo natural para preservar a nossa saúde, a de nossos clientes [eles fazem feira nos fins de semana] e também a nossa terra”, salienta.

A técnica escolhida para recuperação ecológica foi a “muvuca de sementes”. “Nós não conhecíamos, o plantio foi feito com o pessoal da ONG e meu marido; agora, um ano depois, está uma beleza, principalmente depois das chuvas, as formigas não atacaram, está tudo indo muito bem e até a água já aumentou”, acrescenta Aparecida.

A professora Renata Fonseca explica que a “muvuca de sementes”, ou “plantio direto de sementes”, é apenas uma das técnicas utilizadas na recuperação ecológica. “Algumas mudas de espécies arbóreas nativas são produzidas pelo viveiro da Faculdade de Ciências Agronômicas e outras, ainda, são compradas com a verba prevista pelo projeto. Em 2021, vamos continuar com os cursos e com a programação iniciada em março de 2019”, enfatiza.

De acordo com Renata, a parceria dos extensionistas é fundamental, pois eles literalmente “abrem as porteiras” dos produtores para levar as propostas de recuperação ecológica de suas áreas.

“Esse trabalho de conscientização e convencimento é, em grande parte, devido a esses profissionais. Por tal motivo, a parceria com eles e com as organizações não governamentais [Itapoty e Giramundo Mutuando] é sempre tão bem-vinda, neste e em outros projetos que temos feito ao longo dos anos entre a Universidade, a extensão rural e as ONGs”, conclui.

Mais detalhes sobre o Projeto Gigante Guarani podem ser conferidos pela internet.

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